Io Saturnalia!

Existem momentos em que eu penso seriamente em encerrar meus trabalhos com os estudos clássicos. Há poucas pessoas interessadas, os alunos são raros e inconstantes ao longo do ano, financeiramente é até uma certa ajuda, mas não é uma renda com a qual eu possa contar para pagar minhas contas.

O que é incrível é que sempre que estou prestes a tomar a decisão de não mais ensinar latim e grego no próximo ano, algo inesperado acontece. Dessa vez, num momento em que eu me ressentia da falta de interesse das pessoas em geral, uma página que criei no Facebook para divulgar os estudos clássicos e que eu não atualizava há mais de um ano, de repente começa a ter uma média de dez novas curtidas por dia! Eu cocei minha cabeça, fiz uma cara de: “ué… não dizem que páginas que não são atualizadas são completamente esquecidas?”…  e simplesmente continuei minhas outras tarefas…rsrs

Mas agora é chegada a época do Natal. E eu não consigo guardar apenas para mim algumas reflexões que me vêm nessa época.

Algumas pessoas de meu círculo social começam a lamentar e principalmente, criticar, o fato de que em hoje em dia ninguém mais se lembra que natal é uma data cristã em que se comemora o nascimento de Jesus Cristo. Por outro lado, vejo pessoas se esforçando para mostrar que o natal cristão é uma mentira, que não passa de uma mitologia copiada de outras religiões pagãs da antiguidade.

Outros, menos numerosos, criticam o excesso de consumo de uma data capitalista.

 

Quando me deparo com essas discussões, todos os anos, eu simplesmente me lembro da Saturnália. 🙂

Escultura 'Saturnalia', de Ernesto Biondi, 1909.

Escultura ‘Saturnalia’, de Ernesto Biondi, 1909.

 

A Saturnália era um festival romano em honra ao deus Saturno, uma antiga divindade itálica da agricultura. Saturno teria introduzido a agricultura em Roma. Posteriormente, foi identificado com o deus grego Cronos, o Senhor do Tempo. A Saturnália era uma festa para celebrar a época da semeadura e é fácil compreender porque houve essa identificação: a época de semear e de colher os frutos da semeadura marcam o ritmo de vida de quem está mais próximo da natureza. Nós, seres urbanos, facilmente perdemos esse ritmo. Ritmo tal é o que nos fornece os alimentos indispensáveis para a manutenção das nossas vidas. É natural para quem está próximo da natureza tratar a agricultura e o tempo ritmado como deuses que merecem ser celebrados em atitude de gratidão.

Mas por que eu me lembro da Saturnália nessa época do ano, você deve estar se preguntando!

A Saturnália era uma das principais, se não a principal, festividade romana. Era celebrada entre os dias 17 e 23 de dezembro. E muitos dos seus elementos festivos se transformaram e sobreviveram em nossa sociedade brasileira, herdeira da cultura europeia.

Um dos aspectos mais marcantes nos dias da Saturnália era a atitude de permissividade e subversão das normas sociais. Ninguém trabalhava, as escolas ficavam fechadas, não havia julgamentos judiciais e não se podia declarar nenhuma guerra. As pessoas se vestiam com roupas coloridas e informais, brincavam, jogavam e até tinham permissão para fazerem apostas. Era uma época de liberdade de expressão, aos escravos era permitido falar tudo o que queriam aos seus donos e não poderiam ser castigados por isso. Aos escravos era permitido, durante a Saturnália, banquetear, e muitas vezes eram servidos pelos próprios donos! Todos usavam o pilleus, um chapeuzinho usado pelos escravos libertos como marca de distinção social. Cidadãos livres, da nobreza ou plebeus, escravos e escravos libertos usavam o pilleus para que todos se tornassem iguais.

Horácio chama essa época de “Liberdade de Dezembro”. Lembra um pouco nosso carnaval, não é mesmo?

O último dia da Saturnalia era chamado de Sigillaria. Era o momento das trocas de presente! Presentes caros não combinariam nada com o espírito de igualdade presente na Saturnalia, concordam? Os mais valiosos presentes eram aqueles feitos pelas próprias pessoas! Até poderia se comprar o presente, mas quanto mais simples, mais demonstravam o afeto que a pessoa que dava sentia pela pessoa presenteada. O poeta Marcial tem um conjunto de poemas descrevendo presentes típicos dessa data. A ideia era que o poeminha acompanhasse o presente.

Lembra bastante a nossa troca de presentes e cartões natalinos, não é?

Quanto a mim, essa época de Natal e Saturnália é muito inspiradora. É um convite para celebrar a Vida que morre e renasce seguindo o ritmo das colheitas. (Em outras palavras, isto é o que significa a palavra “liberdade”, que talvez eu explore em outro post.) De fato, sou uma pessoa urbana e não planto os alimentos que como. Mesmo assim, trago em mim o ritmo da natureza: planto sonhos, semeio esperanças, cultivo meus amigos e meus projetos e colho a sabedoria em cada encontro com meus companheiros de caminhada! E isso merece ser celebrado, independentemente de crenças ou críticas.

 

Feliz Natal! Feliz Vida! Io Saturnalia!

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