Nina Simone: OMNIA MEA MECUM SUNT

Uma bacante, de Arthur Wardle

Só a arte sobrevive a todo horror.  Logo depois da destruição de Troia, veio um longo período de trevas, em que temos raros registros sobre a cultura grega. Mas sabemos que nessa época teriam surgido os poemas épicos de Homero sobre a lendária guerra e o alfabeto grego. Saber disso me dá forças para entrar no facebook olhar para o nosso mundo hoje.

Só a arte pode nos salvar. E quem me salvou hoje foi a Nina, duas vezes. Trouxe-me de volta a máxima latina legada por Sêneca

OMNIA MEA MECUM SUNT

ou na versão de Cícero

OMNIA MEA MECUM PORTO

traduzindo: Todas as minhas coisas estão comigo ou Carrego comigo tudo que é meu. Ou melhor ainda, a versão maravilhosa na voz dessa mulher maravilhosa:

Não tenho casa, não tenho sapatos
Não tenho dinheiro, não tenho classe
Não tenho saias, não tenho nenhuma camisola
Não tem perfume, não tenho cama
Não tenho homem

Não tenho mãe, não tenho cultura
Não tenho amigos, não tenho escolaridade
Não tenho amor, não tenho nome
Não tenho etiqueta, não tenho nenhum código
Não tenho Deus

Então o que eu tenho?
Por que estou viva afinal?
Sim, o que eu tenho ninguém pode tirar

Eu tenho o meu cabelo, tenho minha cabeça
Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas
Tenho meus olhos, tenho meu nariz
Tenho minha boca, tenho meu sorriso
Tenho minha lingua, tenho meu queixo
Tenho meu pescoço, tenho meus seios

Tenho meu coração, tenho minha alma
Tenho minhas costas, tenho meu sexo
Tenho meus braços, tenho minhas mãos
Tenho meus dedos, tenho minhas pernas
Tenho meus pés, tenho meus dedos dos pés
Tenho meu fígado, tenho meu sangue

Eu tenho a vida
Eu tenho minha liberdade
Eu tenho a vida

Eu tenho a vida
E eu vou mantê-la
Eu tenho a vida
E ninguém vai tirá-la
Eu tenho a vida

A juventude de Baco, de William-Adolphe Bouguereau, 1884. Baco é o princípio da vida, a vontade.

 

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