Carpe Diem!

O primeiro texto publicado no blog , em março de 2010, trazia a tradução da Ode 1,11 de Horácio, o poema que cunhou a expressão Carpe Diem. Um dos meus preferidos, foi o primeiro poema que traduzi quando ainda estava no primeiro ano de estudos de língua latina na graduação da Unicamp.

Hoje eu recebo pela fan page do Facebook um áudio do Guilherme Flores cantando sua versão do poema. O resultado é belíssimo! Confiram no link abaixo:

https://soundcloud.com/guilherme-gontijo-flores/ode-111-carmen-111

 

Parkes_Michael-Anubis

Arte de Parkes, Michael-Anubis

 

O conceito de carpe diem está intimamente ligado ao conceito de memento mori.

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Io Saturnalia!

Existem momentos em que eu penso seriamente em encerrar meus trabalhos com os estudos clássicos. Há poucas pessoas interessadas, os alunos são raros e inconstantes ao longo do ano, financeiramente é até uma certa ajuda, mas não é uma renda com a qual eu possa contar para pagar minhas contas.

O que é incrível é que sempre que estou prestes a tomar a decisão de não mais ensinar latim e grego no próximo ano, algo inesperado acontece. Dessa vez, num momento em que eu me ressentia da falta de interesse das pessoas em geral, uma página que criei no Facebook para divulgar os estudos clássicos e que eu não atualizava há mais de um ano, de repente começa a ter uma média de dez novas curtidas por dia! Eu cocei minha cabeça, fiz uma cara de: “ué… não dizem que páginas que não são atualizadas são completamente esquecidas?”…  e simplesmente continuei minhas outras tarefas…rsrs

Mas agora é chegada a época do Natal. E eu não consigo guardar apenas para mim algumas reflexões que me vêm nessa época.

Algumas pessoas de meu círculo social começam a lamentar e principalmente, criticar, o fato de que em hoje em dia ninguém mais se lembra que natal é uma data cristã em que se comemora o nascimento de Jesus Cristo. Por outro lado, vejo pessoas se esforçando para mostrar que o natal cristão é uma mentira, que não passa de uma mitologia copiada de outras religiões pagãs da antiguidade.

Outros, menos numerosos, criticam o excesso de consumo de uma data capitalista.

 

Quando me deparo com essas discussões, todos os anos, eu simplesmente me lembro da Saturnália. 🙂

Escultura 'Saturnalia', de Ernesto Biondi, 1909.

Escultura ‘Saturnalia’, de Ernesto Biondi, 1909.

 

A Saturnália era um festival romano em honra ao deus Saturno, uma antiga divindade itálica da agricultura. Saturno teria introduzido a agricultura em Roma. Posteriormente, foi identificado com o deus grego Cronos, o Senhor do Tempo. A Saturnália era uma festa para celebrar a época da semeadura e é fácil compreender porque houve essa identificação: a época de semear e de colher os frutos da semeadura marcam o ritmo de vida de quem está mais próximo da natureza. Nós, seres urbanos, facilmente perdemos esse ritmo. Ritmo tal é o que nos fornece os alimentos indispensáveis para a manutenção das nossas vidas. É natural para quem está próximo da natureza tratar a agricultura e o tempo ritmado como deuses que merecem ser celebrados em atitude de gratidão.

Mas por que eu me lembro da Saturnália nessa época do ano, você deve estar se preguntando!

A Saturnália era uma das principais, se não a principal, festividade romana. Era celebrada entre os dias 17 e 23 de dezembro. E muitos dos seus elementos festivos se transformaram e sobreviveram em nossa sociedade brasileira, herdeira da cultura europeia.

Um dos aspectos mais marcantes nos dias da Saturnália era a atitude de permissividade e subversão das normas sociais. Ninguém trabalhava, as escolas ficavam fechadas, não havia julgamentos judiciais e não se podia declarar nenhuma guerra. As pessoas se vestiam com roupas coloridas e informais, brincavam, jogavam e até tinham permissão para fazerem apostas. Era uma época de liberdade de expressão, aos escravos era permitido falar tudo o que queriam aos seus donos e não poderiam ser castigados por isso. Aos escravos era permitido, durante a Saturnália, banquetear, e muitas vezes eram servidos pelos próprios donos! Todos usavam o pilleus, um chapeuzinho usado pelos escravos libertos como marca de distinção social. Cidadãos livres, da nobreza ou plebeus, escravos e escravos libertos usavam o pilleus para que todos se tornassem iguais.

Horácio chama essa época de “Liberdade de Dezembro”. Lembra um pouco nosso carnaval, não é mesmo?

O último dia da Saturnalia era chamado de Sigillaria. Era o momento das trocas de presente! Presentes caros não combinariam nada com o espírito de igualdade presente na Saturnalia, concordam? Os mais valiosos presentes eram aqueles feitos pelas próprias pessoas! Até poderia se comprar o presente, mas quanto mais simples, mais demonstravam o afeto que a pessoa que dava sentia pela pessoa presenteada. O poeta Marcial tem um conjunto de poemas descrevendo presentes típicos dessa data. A ideia era que o poeminha acompanhasse o presente.

Lembra bastante a nossa troca de presentes e cartões natalinos, não é?

Quanto a mim, essa época de Natal e Saturnália é muito inspiradora. É um convite para celebrar a Vida que morre e renasce seguindo o ritmo das colheitas. (Em outras palavras, isto é o que significa a palavra “liberdade”, que talvez eu explore em outro post.) De fato, sou uma pessoa urbana e não planto os alimentos que como. Mesmo assim, trago em mim o ritmo da natureza: planto sonhos, semeio esperanças, cultivo meus amigos e meus projetos e colho a sabedoria em cada encontro com meus companheiros de caminhada! E isso merece ser celebrado, independentemente de crenças ou críticas.

 

Feliz Natal! Feliz Vida! Io Saturnalia!

Horácio, Ode II, 14

Belíssimo poema de Horácio, retirado do melancólico livro II das Odes, com a temática do memento mori, expressão comumente traduzida por “lembre-se da morte”.

Eheu fugaces, Postume, Postume,

labuntur anni nec pietas moram

rugis et instanti senectae

adferet indomitaeque morti,

non, si trecenis quotquot eunt dies,

amice, places inlacrimabilem

Plutona tauris, qui ter amplum

Geryonen Tityonque tristi

compescit unda, scilicet omnibus

quicumque terrae munere uescimur

enauiganda, siue reges

siue inopes erimus coloni.

Frustra cruento Marte carebimus

fractisque rauci fluctibus Hadriae,

frustra per autumnos nocentem

corporibus metuemus Austrum:

uisendus ater flumine languido

Cocytos errans et Danai genus

infame damnatusque longi

Sisyphus Aeolides laboris.

Linquenda tellus et domus et placens

uxor, neque harum quas colis arborum

te praeter inuisas cupressos

ulla breuem dominum sequetur;

absumet heres Caecuba dignior

seruata centum clauibus et mero

tinguet pauimentum superbo,

pontificum potiore cenis.

Ai, Póstumo, Póstumo, fugazes

escorrem os anos e nem a piedade trará

retardo às rugas e à iminente

velhice e à indômita morte,

nem, amigo, se em cada dia que se vai,

aplacares com trezentos touros

Plutão, ilacrimável, que confina

o trigigante Gerião e Tício

em suas fúnebres águas; ou seja, todos,

quem quer que dos dons da terra nos nutrimos,

terão de cruzá-la, quer reis

quer pobres colonos sejamos.

Em vão nos privaremos do cruento Marte

e das ruidosas vagas do rouco Adriático,

em vão, no outono, recearemos

o Austro, nocivo aos corpos:

teremos de ver o negro Cocito, vagando

em leito lânguido, e de Dânao a prole

infame e Sísifo Eólida,

condenado a longo labor.

Será desfeita a terra e a casa e tua agradável

esposa, e dessas árvores que cultivas,

salvo os odiosos ciprestes, a ti

nenhum seguirá, fugaz senhor.

Herdeiro mais digno consumirá teu Cécubo

guardado a cem chaves e tingirá

o pavimento com puro vinho soberbo,

melhor que a ceia dos pontífices.

(Tradução de Alexandre Piccolo)

Curiosidade: Há uma banda gótica austríaca chamada Dargaard que em 2001 musicou esse poema de Horácio. Veja abaixo um video feito com essa música.

Ode II 14 de Horácio por Dargaard

O Carpe Diem de Catulo

No primeiro post do blog mencionei a expressão carpe diem e contei de onde ela se originou. Pois bem, a expressão originou-se do poema de Horácio, mas a verdade é que podemos considerar o carpe diem um gênero literário, um lugar-comum nas produções poéticas, além de um verdadeiro estilo de vida, que nos exorta a saborear a vida ao máximo. Neste post eu apresento um poema do poeta Catulo (Caius Valerius Catullus 87/84? – 54/52? a. C.). Reparem como é forte o sentimento de urgência em viver a vida com o que ela nos apresenta de melhor: o Amor. O poema é dirigido a sua musa chamada Lésbia, uma alusão a grande poetisa Safo de Lesbos, do século VII a. C., (e que em breve será assunto de um post).

Catullus, V

Vivamus mea Lesbia, atque amemus,
rumoresque senum seueriorum
omnes unius aestimemus assis!
soles occidere et redire possunt:
nobis cum semel occidit breuis lux,
nox est perpetua una dormienda.
da mi basia mille, deinde centum,
dein mille altera, dein secunda centum,
deinde usque altera mille, deinde centum.
dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut ne quis malus inuidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.

Vamos viver, minha Lésbia, e fazer amor!

E os rumores dos velhos mais severos

Julguaremos todos de nenhum valor!

Os sóis podem morrer e retornar:

Para nós, uma vez morta a breve luz,

Há uma única e perpétua noite a ser dormida.

Dá-me beijos mil, depois cem,

Depois mil outros, depois um segundo cento,

Depois até outros mil, depois cem.

Então, quando tivermos feito muitos mil,

Vamos embaralha-los, para que não saibamos,

Ou para que nenhum malvado possa invejar,

Uma vez que saiba que são tantos os beijos.

(Tradução Beatris R. Gratti)

Carpe diem!

Muitas pessoas têm seu primeiro contato com a língua latina através da expressão carpe diem, muitas vezes traduzida como “aproveite o dia”. Creio que tal expressão  tenha se tornado popular com o filme Sociedade dos poetas mortos, de 1989, dirigido por Peter Weir. A expressão é retirada de uma das odes de Horácio (Quintus Horatius Flaccus, 65 – 8 a.C.), a ode 11 do primeiro livro (ode 1.11):

Tu ne quaesieris (scire nefas) quem mihi, quem tibi

finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios

temptaris numeros. Vt melius quicquid erit pati!

Seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam

quae nunc  oppositis debilitat pumicibus mare

Tyrrhenum, sapias, uina liques et spatio breui

spem lomgam reseces. Dum loquimur, fugerit inuida

aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.

Não procures saber (é sacrílego) que fim os deuses

darão a mim e a ti, ó Leucônoe, nem tentes os números

babilônios. Como será melhor suportar o que quer que venha a ser!

Se Júpiter concedeu mais invernos ou se o último

que agora quebra no mar Tirreno em suas rochas opostas,

saboreia, filtra os vinhos e retire num espaço breve

a grande esperança. Enquanto falamos foge o invejoso

tempo: aproveita o dia, confia o mínimo no dia de amanhã.

(Trad. Beatris Gratti)